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O que matou Elis Regina
"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos Nós ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"
Elis faria 60 anos no dia 17 passado. Uma das poucas unanimidades na música, figura como a maior voz da história da MPB, no sentido mais amplo possível.
Não foi o pó que matou Elis Regina. Ela era uma fonte incessante de sentimento. Explosiva. Sua forma de cantar era mais do que simples interpretação, era uma descarga do seu ser. Ouvindo-a cantar, dá pra sentir a intensidade incrível de emoção que ela deslizava nas palavras mais do que cantadas, na verdade jorradas como se fossem uma maré de sangue, suor, lágrimas, indignação.
'Como nossos pais', uma das músicas políticas mais importantes da história da MPB, mostra Elis decepcionada com a mediocridade da nossa sociedade. E nós, hoje, ainda somos como nossos pais. A classe média gaúcha (para pegar o exemplo do local onde Elis nasceu) mostra o seu autismo do mundo ao redor quando se revolta primordialmente com os fiscais de trânsito, com o desarmamento e o PT. Logo o PT, o único partido de esquerda desse país com cacife para governar. Esse eles odeiam, porque odeiam a idéia de mudança. O desarmamento, porque é bonito ter um brinquedinho que mata bandidos (o outro diferente assustador), para proteger o próprio patrimônio. E os fiscais de trânsito? Porque são os únicos que não aplicam a máxima do PPP (pobre-preto-prostituta) na hora de distribuir penalidades. O que os faz se indignar? Algumas multas arbitrárias. Mas será que são só os azulzinhos que são arbitrários? Será que não existem também juízes, promotores, policiais arbitrários? Isso não indigna, porque está longe. O sistema penal não chega a eles. O problema são os azulzinhos.
O que me atinge eu reclamo; o problema dos outros é dos outros. Como Elis, uma mulher capaz de fazer sentir sua própria pulsação enquanto derrama seu ser explosivo nas músicas, poderia se conformar com tamanha mediocridade? O que matou Elis, e eventualmente mata seres extraordinários, é a conformidade desse homem médio que guia a sociedade.
Elis era explosiva demais para nós.
Fernando Hierro está errado
Hierro, grande levantador de taças
Acompanho o Madrid há alguns anos, desde a temporada 2001/2002, quando papou pela última vez a Championsleague. Durante a semana, Hierro, um dos ícones da história do Real Madrid, declarou que a causa da situação atual do time foi a saída do técnico Vicente Del Bosque.
Não concordo. Na verdade, Del Bosque é um técnico estilo Zagallo, que não tem grande conhecimento tático e perfil paternal. Quando o Madrid, na temporada 2002/2003, perdeu para a Juventus, ficou muito claro que o time tinha dois defeitos: Hierro, zagueiro central, estava muito velho, tomou um drible constrangedor do fraco Del Piero e a taça acabou nas mãos do Milan. De outro lado, Del Bosque foi incapaz de treinar taticamente o time, de maneira a criar uma organização melhor do meio campo e da defesa. O time ficaria imbatível se contratasse um bom técnico e um zagueiro. O Presidente fez o certo: mandou embora os dois furos do time.
Qual foi o erro? Primeiro, Florentino Perez contratou Carlos Queiroz, um sujeito que nem técnico era (era auxiliar de Alex Ferguson, do ManUnt). Depois, não só não trouxe um zagueiro, como ainda deixou ir embora Makelele, que funcionava como pulmão do time. Como ele, provavelmente o meio teria ficado muito mais equilibrado, com mais liberdade para Beckham, Zidane e Figo. Daí foi uma sucessão de erros: o time ficou desequilibrado, com ainda um descréscimo técnico terrível de Raúl, primeiro por estar mal-escalado na meia, depois por ele próprio.
Solução para 2004/2005? Contratou o técnico Camacho, Walter Samuel e trouxe Owen (???). Depois de uma desistência decepcionante do primeiro, que viria como disciplinador, mas pelo jeito não conseguiu botar ordem na casa, ficou Mariano Remón (outro técnico que não era técnico!). Com isso, durante todo o primeiro semestre, o Madrid jogou fora a temporada, ficando incrivelmente atrás do irresistível Barça na Liga. Não formou base, não entrosou. Com a chegada do Luxa e do Gravesen, a situação melhorou um pouco. Mas não é o suficiente.
Com o tempo, a estrela de alguns jogadores acabou parando de brilhar (é inevitável). Figo, Raúl e Beckham decaíram vertiginosamente. Zidane não pôde fazer muita coisa. Ronaldo mostrou falta de profissionalismo, pois se mantém fora de forma e está com a cabeça em outro lugar. Sobretudo, falta raça no time. E defesa.
Moral da história? O que fez o Madrid cair foi uma política equivocada de contratar muitos jogadores de ataque e a falta de disciplina, concentração e raça do elenco.
Trilha sonora do post: The Bravery, 'Tyrant'.
Escrito por -MOX- às 23h48
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