Mox in the Sky with Diamonds
  

O Fascismo mora aqui ao lado

Deleuze e Guattari, depois de alguns anos de trauma europeu, voltaram a usar o termo "fascista" para definir certo tipo de racionalidade social. O fascista, no sentido que eu uso, é todo aquele que tem um problema sério em conviver, tolerar e respeitar a diferença. Assim, por exemplo, com os homossexuais, negros, mulheres, criminosos, integrantes de movimentos sociais, etc. Todo aquele que pode carregar o status de "anormal" é estrangeiro na sociedade, e, por isso, odiado pelos fascistas.

Quando a sociedade começa a discutir sobre a criminalidade, o traço maior do fascista, que é a irracionalidade e a (conseqüente) ausência de argumentação imediatamente são despertados. Pessoas de esquerda, inclusive, liberam os seus demônios interiores, expelem raiva, ódio. Os direitos humanos são, de repente, esquecidos. Vira coisa do "pessoal" dos direitos humanos. Que pessoal? É concebível hoje em dia que hoje em dia alguém seja contra os direitos humanos?

Sim, existe gente contra os direitos humanos desde que seja bem longe de onde eles estão. Existe gente que defende tolerância zero com os "bandidos" e, ao mesmo tempo, quer portar arma para ameaçar no trânsito e reclama dos fiscais que multam quem comete ilícito. Incoerência? Desde quando um pensamento irracional guarda coerência?

De fato, existem dois grupos de pessoas sobre o assunto. O primeiro simplesmente não quer pensar sobre o tema. Quer ficar com o seu senso comum, não aceita argumentação, rejeita o racional. Esse grupo até concorda com direitos humanos, mas não quer pensar nisso quando se fala de bandidos. O segundo grupo, que eu defino carinhosamente como a corja, o que há de mais imundo na humanidade, é que o aceita o Estado de exceção, deixa de lado a democracia em prol de uma sociedade "ordeira". São os que estão ao lado das ditaduras, mesmo que elas sejam mascaradas sob certos rituais democráticos. São os legítimos fascistas, os que não toleram o diferente, não o suportam. Escrevem cartas para o jornal falando dos vagabundos, sugerindo castração, pena de morte, tortura.

Esse segundo grupo, pouca gente se dá conta disso, causa um mal infinitamente maior que qualquer criminoso - até os serial killers. Porque, por pior que seja o criminoso, ele só pode praticar crimes durante um curto período de tempo - a sua vida. Essas pessoas, por sua vez, propagando esse senso comum podre e intolerante contribuem para que a estrutura da racionalidade das pessoas continue a mesma merda - causando um dano histórico impagável - a perpetuação da injustiça que vivemos.

Um fascista não acrescenta nada. Eles sempre estiveram aí. O seu pensamento não contribuiu em nada para a humanidade. Eles jogaram pedra em Madalena, integraram a Santa Inquisição, o TFP, jogaram depois na Geni e assim em todo fenômeno social que se diferencie das suas medíocres concepções de vida e normalidade.

Sim, o inferno é aqui ao lado.

 

Trilha sonora do post: The Verve, 'History' (!!!!!!!!!!!!!!!!!).      



Escrito por -MOX- às 22h16
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A angústia de George W. Bush

   George W. Bosta

A angústia de George W. Bush não é só dele. Com a queda do muro de Berlim, o mundo totalizado e o domínio da dicotomia URSS/EUA em todos os setores da vida se exauriu. Não caiu somente a linearidade essencial na vida do homem médio (bem e mal), na verdade foram os próprios alicerces da visão moderna de "totalidade" que desabou. A fragmentariedade do mundo atual, onde ninguém tem realmente o controle sobre nada, joga o homem médio em uma situação difícil: quem atacar? Defender o quê?

Bauman disse com argúcia que, dividindo o mundo, a dicotomia dos blocos dava a visão de totalidade. Nada era indiferente. O cinema, a literatura, a música, os costumes, roupas, etc. Hoje, ninguém mais fala em nome da humanidade.

Salvo George W. Bush. A angústia de Bush é compartilhada por milhões de pessoas. Não só americanas: olhem quantos brasileiros têm posições parecidas com os 'falcons' americanos, basta ver as posições sobre desarmamento, pena de morte, Cuba, casamento homossexual, aborto, etc. Ao montes. A tentativa política de Bush, desde que assumiu, é devolver ao cidadão americano a tranqüilidade de viver sob o retorno à totalidade. Para isso, escolheu o mundo islâmico como inimigo. O mundo árabe é o novo mundo vermelho.

Se vai dar certo? Talvez. Mas, nesses tempos pós-modernos, não creio.

 

Constantine e o Deus que esqueceu de morrer

  Keanu Reeves: ainda sem nenhuma expressão

Constantine traz de volta, embora sob a ficção dos quadrinhos, a visão cristã tradicional sobre Deus, sobretudo em dois pontos. Primeiro, ensina que não basta a realização de obras em serviço de Deus para ir ao céu (Constantine passava o tempo todo matando demônios, supostamente uma boa obra, mas está condenado ao inferno), é necessário fé e veneração. Segundo, a existência do Inferno e demônios, contrapondo-se ao Deus-bom. O interesse é que esses princípios ressuscitam o cristianismo pré-reforma.

A primeira inovação do homem racional iluminista (Lutero, no caso da reforma) foi eliminar o dogma de que é a fé que leva ao céu. Para ele, o fundamental são as obras. E, do ponto de vista (teo)lógico, seria impossível analisar de forma diferente. Por que um deus onipotente, onisciente e onipresente, que criou seres humanos, precisaria de louvações, amor e crença? Ele próprio já não é o bastante? Ou Deus auto-estima baixa, ou, a rigor, tanto faz a fé. Os seres humanos são absolutamente inferiores. Por que o superior precisa do inferior? Muito mais lógico que ele analise as pessoas pelo que elas fazem entre si. E tem outro argumento: ou se admite a ficção do purgatório, ou as pessoas sem acesso ao cristianismo (vejam: elas não foram culpadas, algumas nem tiveram oportunidade de conhecer a doutrina, como ocorre com o Virgilio de Dante), injustamente, são relegadas do céu. Nesse caso, a persistir a ficção da Igreja, ou Deus teria auto-estima baixa, ou seria injusto.

Já o Inferno, ultimamente esquecido pela Igreja (embora nunca negado), também não tem coerência (teo)lógica. Se Deus é bom e onipresente, como pode existir o inferno? Se Deus é o bem e tem poderes ilimitados, como pode permitir a existência do mal? Ou pior: se Deus é tudo (onipresente, supondo um mundo como imaginaram os filósofos Berkeley e Spinoza), então ele também é o Diabo? No fundo, tanto a questão da fé como caminho para a salvação quanto a existência do inferno são argumentos úteis. A fé, para defender a moral de calça-curta, aquela estilo Abilio Diniz (sou um predador comercial, mas vou à missa aos domingos). O Inferno, para atemorizar e ressaltar o argumento de Pascal ("nunca saberei se Deus existe, mas se acreditar e não existir, nada me ocorrerá. O contrário..."). Serviram de pretexto para tudo até muito pouco tempo atrás. Ou talvez até hoje. Nietzsche disse há dois séculos atrás que Deus estava morto. Embora ateu, na verdade se referia ao Deus cristão, esse Deus com que precisa de rasgação de seda, é injusto e mau (pois é tudo). Pelo jeito, esqueceram de avisar as pessoas disso...

 

Trilha sonora do post: Radiohead, 'Where bluebyrds fly'.



Escrito por -MOX- às 20h12
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