Por que o desarmamento incomoda?
O desarmamento está aí, é um dos fatos políticos mais importantes deste semestre (subalterno, é claro, em relação à grande jogada do Roberto Jefferson), o plebiscito vem para que possamos votar se queremos ou não ter armas no nosso país.
Assim como as drogas, o álcool, a corrupção, a pedofilia ou qualquer outra coisa que se pense, as armas não são elimináveis. Ninguém vai conseguir erradicar qualquer uma dessas coisas. Sempre haverá comércio negro. O que não significa, em absoluto, que não possamos arriscar a alternativa mais racional.
Nenhum defensor do Estatuto do Desarmamento argumenta em torno de uma redução radical da criminalidade. Só os seus detratores colocam isso na boca de quem defende. O que todos os defensores dizem é: com menos armas, haverá menos crimes com armas, ou seja, os de resultado pior.
Vejam a subversão da lógica: aqui, um Promotor de Justiça defende que o drogado armado causa crimes porque está drogado, do contrário, "em plena consciência", não iria os cometer. Ora, que subversão! O drogado comete crimes porque está armado! A droga tem um efeito pessoal, no próprio corpo da pessoa; a arma é que lesa a terceiros! Entretanto, a droga é satanizada; a arma, idolatrada (um espécie de "falo adicional", quem sabe).
A proibição da droga, portanto, é totalmente moral. E a liberação das armas, idem. Pelos efeitos que causam, NADA sustenta a lógica de que as armas devem ser liberadas e as drogas proibidas. Se cada um é dono do seu próprio corpo e do seu próprio destino, é preferível um mal contra si mesmo do que contra os outros. Portanto, a droga é menos lesiva que a arma.
Mas o que realmente importa é o seguinte: o Estatuto do Desarmamento subverte a lógica do bandido/mocinho. Esse é o ponto. Sem a noção de "cidadão ordeiro", "cidadão de bem", etc., não existe argumentação contra o Estatuto. Fugindo do maniqueísmo, a proibição de armas assusta aos "homens de bem". É o rompimento com essa lógica que faz com que as pessoas reajam com veemência contra o Estatuto. Se está contra nós, é a favor dos bandidos. Uma vez que todos são atingidos pela lei, predomina a tradição brasileira de que a lei só se aplica "aos outros".
Se a lei tivesse um dispositivo proibindo armas para quem recebe abaixo de R$ 1.000,00, aposto que haveria bem menos - ou nenhum - protesto.
É claro que é respeitável a posição liberal extrema, no sentido de que toda proibição geral tende à ineficácia e ao surgimento de guetos. Mas não faz sentido, se proibimos a venda de tóxicos, que não proibamos a venda de armas.
Um cidadão bêbado tem uma arma às mãos é um crime muito mais provável do que o que não tem. E, convenhamos, isso não é nada incomum. E o próprio sóbrio - na direção do seu carro - muito vezes usa o seu "falo ambulante" para causar medo em quem lhe desafia no trânsito. Enfim, o objetivo do Estatuto é evitar ESSA criminalidade, porque a outra - me desculpem - nenhum direito penal vai resolver.
Por fim, uma palavrinha sobre a tal tese de que "mais armas, menos crimes". Primeiro, tem-se que ver a situação de cada estado americano que foi investigado. A cultura - e não a presença ou ausência de arma - é bem;mais decisiva. Segundo, se é por isso, os países da Europa tem muito menos armas que os EUA e seus índices de crimes são bem inferiores. Quanto às teses conspiratórias contra Taurus e o mercado americano, não acredito, como não acredito em qualquer teoria conspiratória. Quem vença a democracia, independente da posição vencedora no plebiscito.
Urgente: Drogas para Chris Martin!
Ui! Eu não quero virar tio!
A história do rock é permeada pela entrada de drogas ilícitas e a respectivas alterações em matéria de melodia, ritmo e harmonia que causam. Que o digam o Sargento Pimenta ou o Satânico pedido, ambos produtos do LSD.
Depois de ouvir “X&Y” algumas vezes, e realmente não gostar, sendo o Coldplay umas das minhas bandas preferidas (mais que admirador: sou fã), cheguei à conclusão, tirada da balada perfeita (perfeita demais, até) “What if” – every step that you take – que Martin pode virar o Sting da nossa geração. Dono da uma banda inquestionável, The Police, é um dos artistas mais caretas, e por isso chatos, da história do rock. Não é que ele seja mau músico, é que simplesmente combina fantasticamente com a palavra TÉDIO. Suas músicas até são legais. Mas falta algo, uma atitude mais iconoclasta, para que não pareça simplesmente um TIO.
Engajado como Sting, Martin corre o risco de virar tio bem cedo. “X&Y” é um achado perfeito do início ao fim. Tudo está excessivamente no lugar. O que, para o rock, é um defeito. Um pouco de imperfeição, barulho, desconforto na audição é elemento essencial do bom e velho rock’n’roll.
A história da droga é só brincadeira: mas faltou experimentalismo ou re-invenção ao Coldplay.
Trilha sonora do post: Coldplay, "Low".