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Como reagir à crise?
A crise política colocou um grande ponto de interrogação sobre a esquerda brasileira. Porque, bem ou mal, o PT é a esquerda brasileira. PSOL e PSTU são partidos sem representação social; PSB e PC do B são anexos petistas. O PDT é um entulho corporativo, sobrevivendo no discurso getulista. PSDB é centro, centro-direita. O restante é de centro-direita ou direita, ou é por demais difuso ideologicamente.
Ou será que não existe esquerda? Ora, todos aqueles que estão comprometidos com a mudança do status quo no Brasil são, de alguma forma, de esquerda. Todos aqueles que vêem a pobreza como algo insuportável, que privilegiam, por exemplo, uma igualdade econômica maior contra o direito de propriedade, são de esquerda, mesmo que não sejam, e até odeiem, o PT. É proibido ser de direita? É claro que não. É algo ruim? Do ponto de vista de quem é de esquerda, sim, mas, para quem é de direita, não. Logo, como ninguém tem o "olho de Deus", é uma postura viável numa sociedade democrática. Com uma observação: a esquerda liberal (que chamamos no Brasil de "centro-esquerda"), ao lutar justamente contra a intolerância, tem o DEVER de resguardar o direito das pessoas que pensam diferente, o seu livre-pensamento e expressão, salvo quando se aproximam de concepções não-democráticas.
Essas pessoas - as de esquerda - que não se conformam com o Brasil do jeito que é, que enxergam a predominância de oligarquias egoístas e acham necessário uma mudança radical no quadro social, perderam a referência na crise. Há gente disparando para todos os lados. Desde a perdida Marilena Chauí, que fez declarações pífias, até gente boa como Cristovam Buarque, Fernando Gabeira e Henrique Fontana, que declaram horror à situação. Nesse momento, creio que as pessoas inteligentes de esquerda estão se dando conta que a nossa utopia, a nossa fé, teve um dos seus alicerces abalados.
A bandeira da ética do PT é essencial para a construção de um país justo. Mas, com esse escândalo terrível, que revelou, por um lado, que tinhamos gente suja no partido - como o revolucionário Dirceu, ou os simplesmente ladrões Delúbio e Silvinho - e, por outro, que o nosso Presidente não é tão grande quanto parecia, porque a cada dia se apequena mais no seu autismo, a ética acabou parecendo algo irreal, impossível.
É nesse momento que os intelectuais devem aparecer. Num país em que a maioria vive na pobreza absoluta, é preciso que eles também tenham alguma função social. Eles deverão trazer novas referências, novas estórias para que possamos construir uma esquerda nova, sem que com isso eu diga que tenhamos que construir um novo partido. Curioso: nesse mesmo momento, eles falam de "silêncio", quando é exatamente a hora de falar.
Acabou o reino dos puros. Esse foi o defeito - crônico e imanente - do marxismo, a crença de que os "revolucionários" seriam seres puros, desprovidos de vontades próprias, verdadeiros "homens sublimes" (porque "sublimam" suas vontades pessoais). Isso morreu. O homem-sublime nunca existiu, me apresentem um: Mao? Stalin? Fidel? Já sabemos onde isso foi parar. Pois bem. Creio que está mais que na hora de abandonar, de vez, a metanarrativa marxista. É hora de deixar de lado essas metáforas e construir um novo jogo de linguagem, onde não caiamos nessas armadilhas como caímos até, no final, nos vermos estupefatos com o que ocorreu quando chegamos ao topo do poder.
Enquanto o PSOL fica procurando os "puros", é preciso que consigamos construir uma esquerda que crie a fé nas instituições - que Rawls bem descreveu - de forma que a corrupção não seja atrativa, de forma que acreditemos realmente nessas instituições. Isso passa pela adesão de um programa que abdique, de vez, do sonho revolucionário, e trabalhe no ambiente democrático, confiança na justiça das instituições, para que, bem alimentadas, possam render frutos, de forma que a corrupção seja exceção, e não regra. É preciso reestabelecer a ética, mas sem a crença no homem-sublime. Confiar na democracia, de forma que não preguemos mais a instabilidade institucional.
Eu imaginei - a ainda, de certa forma imagino - que o Governo Lula estava começando a construir isso, dialogando com setores da sociedade que o PT nunca dialogou e, com isso, abrindo mão da "pureza", que veio refletida na frase de Olívio sobre as "más companhias". A decepção foi que a via eleita foi podre - não houve diálogo - mas pura e simplesmente compra, suborno, corrupção. Espero que, para que possamos construir um novo país, com uma nova esquerda, andemos para frente, sem voltar ao homem-sublime, fechando-se em torno de uma esquerda radical, mas, ao mesmo tempo, sempre confiando nas instituições liberais, que garantem os direitos humanos, dando-lhes credibilidade e, com isso, criando um Brasil mais ético. Não precisamos - nem devemos - perder a referência.
Por isso, creio que ainda devamos erguer a bandeira da ética - nunca esquecendo quem é ACM, Bob Jefferson ou Mão Santa -, mas, ao mesmo tempo, sem voltar ao projeto do sublime, que a direita já havia denunciado e, sejamos humildes, com toda razão.
Trilha sonora do post: Black Rebel Motorcycle Club, "Promisse".
Escrito por -MOX- às 22h33
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