UMA CONTRIBUIÇÃO PODEROSA DO LSD PARA A MÚSICA
ou "SATÂNICO E INFALÍVEL"
1967. Os Beatles lançavam sua obra máxima, o impecável 'Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band'. O LSD provocava alvoroço na cultura hippie - peace and love, flower power - que iluminava os países desenvolvidos (sim, porque aqui era só escuridão). Atenção: 1967, um ano antes de 1968, o ano das barricadas juvenis. Então, por favor, sem eufemismos: Jagger, Richards e cia andavam ultra-CHAPADOS. Era a época da criatividade, do protesto, da contra-cultura. Os rapazes até sofreram prisões na época. Resultado para a música: puro experimentalismo. Mas experimentalismo do mais puro rock'n'roll.
"Sing this All Together" é grande música, repleta de corais apoteóticos, cantando junto suas viagens, com uma batera contagiante.
"Citadel" é um rock alternativo: um riff pesado e puxado, com vocal agressivo por baixo, sem prejuízo de um trilhão de efeitos por baixo.
"In another land" tem um piano barroco por baixo, certamente referencial a Bach, com um vocal cheio de efeito desconstrutivo, tem um clima de igreja até passar por uma explosão roqueira e voltar, e assim por diante. Aliás, nome original da música: "Acid in the grass". Desemboca num sonoro RONCO, uma característica de humor do pessoal daquela época.
"2000 Man" é um rock básico, com um violão dedilhado e vocal calmo. "Sing this all together (See what happens)", está mais ou menos para "Sgt. Peppers", uma repetição desconstrutiva e mais experimental da primeira faixa, com viagens de percussão e sopros, gemidos de Jagger, enfim, pura psicodelia, depois de estourar um rock'n'roll com corais e guitarras loucas, mergulha em cerca de quatro minutos de puro experimentação, com flautas, sopros, pianos, viagens, até Jagger voltar, calma e ironicamente, a cantar o refrão, para fechar.
"She's a rainbow" diz tudo desde o nome: "she's... a rainbow". Pôrra, tem coisa mais chapada que isso? Pois bem: a música começa com gritos e, no fundo, um pianinho calmo, para desembocar no que, na minha opinião, é o melhor rock já feito pelos Stones, e isso não é pouca coisa, é óbvio. Com refrão contagiante: "She comes in colors....".
"The Lantern" é uma balada meio country rock, mas totalmente influenciada pela lisergia, com um riff bem marcado, mas em ritmo lento, chapado, arrastado.
"Gomper" é pura viagem: começa com um órgão denso e espacial, acompanhado de um riff em tom baixo, acresce uma percussão indiana e a voz baixa, calma, de Jagger, somando-se a flautas, batuques, gemidos e solos de guitarra. Sente-se: você está em meio a algum ritual de sei-lá-o-quê. Talvez em homenagem às próprias substâncias ilícitas.
"2000 Light Years from home" começa, literalmente, no espaço. Imagine-se viajando com aquelas roupas de astronauta, no meio do silêncio. Depois, cai numa linha forte de baixo e num riff meio blues, acompanhada do vocal dramático, interpretado, de Jagger, que é o destaque da música, ao lado do teclado. O refrão é uma mera entonação mais baixa de vocal, que vai decompondo a música, acrescendo um ritmo mais pegado de bateria que cai, ao final, em mais experimentação doida. Meu filho: aqui não é o planeta Terra, estamos a "2000 Light Years from home". Essa música é de outro planeta.
"On with the show" começa meio cômica, com um vocal avacalhado, meio música latina com piano alucinado, até silenciar a experimentação e ficar apenas os instrumentos mais básicos, com um tom meio anunciador de Jagger, como se tivesse falando em um megafone (e, em certo momento está), passando pelo riff que guia a música e caindo, de novo, no piano clássico alucinado, com um som de multidão ao fundo.
"Their Satanic" acrescenta uma camada a mais no rock'n'roll básico dos Stones, uma lisergia constante, tornando o som mais denso e experimental. Tem um senso de unidade, as faixas encaixam-se uma na outra. E não abre mão de refrões excelentes e riffs poderosos. Obra-prima.
95% das listas colocam "Beggar's Banquet" (1968), "Let it Bleed" (1969), "Sticky Fingers" (1971) e "Exile in Main Street" (1972) no topo das listas (olha a seqüência dos caras, de 1967 a 1972, uma obra-prima por ano, em 1970 o álbum foi ao vivo - Get Yer Ya Ya's Out), mas este é mesmo meu disco favorito dos Stones. Ave-1967.
Trilha sonora do post: The Rolling Stones, "Citadel".